De Paris para Bragança

De Paris para Bragança

Capítulo I

Da Luz às Trevas

No ano de 1966 fui passar umas prolongadas férias de verão em casa de uns primos, em Paris, a cidade mítica da época.

Fiquei deslumbrada com a atmosfera da cidade, os seus monumentos, praças, jardins e amplas avenidas, os grandes armazéns, as margens do Sena, o Quartier Latin. Com o mapa da cidade nas mãos, visitei tudo o que me foi possível, compulsivamente.

Na minha cabeça ecoavam as canções intimistas e viscerais de alguns cantores franceses da época: Charles Aznavour, o belga Jacques Brel, Edith Piaf, Gilbert Bécaud, Serge Gainsbourg e sobretudo Léo Ferré, poeta, compositor, cantor e anarquista. A sua canção “Avec le Temps”, com um profundo cunho nihilista, tornara-se o hino da juventude da época (“Avec le Temps va, tout s’en va…”)

Anos mais tarde, em 1982, tive o privilégio de ir assistir a um concerto do Léo Ferré, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. O bilhete foi-me oferecido por uma amiga como prenda de aniversário. Saímos de lá as duas emocionadas. Posso dizer que foi uma experiência inesquecível

A canção francesa estava na moda e o existencialismo de Sartre seduzia a juventude ocidental privada de referências. Era como que uma reacção libertária contra todos os ditames dos poderes instituídos.

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Para completar a visita à cidade Luz, os meus primos levaram-me a conhecer as noites feéricas da cidade, os cabarets, os “caveaux”, os espectáculos de “can-can”, as zonas do Pigalle e Montmartre com a diversidade da sua fauna humana.

É certo que já visitara Londres em 1960, onde permaneci durante três meses e que também tinha ficado fascinada por esta cidade, mas Paris tem a Luz, as esplanadas, os jardins de canteiros floridos e uma atmosfera única e profundamente romântica.

Por cá, eu já tinha assistido à crise académica de 1962/63, decorrente da proibição do Dia do Estudante pelo Estado Novo, à greve de fome na Cantina da Cidade Universitária, aos discursos inflamados de Jorge Sampaio, o líder estudantil da época, a quem as meninas de Letras chamavam “o ruivo dório invasor”.

Nesse ano, tinha concorrido como professora para todo o país e, enquanto não sabia o resultado do concurso, aproveitei ao máximo as minhas férias em Paris. Parecia que suspeitava que a minha vida ia sofrer uma grande reviravolta…

Um dia de dezembro, o meu pai telefona-me e diz-me: -“Foste colocada no Liceu de Bragança. Tens de regressar rapidamente para ires tomar posse!”

Regressei à pressa num comboio apinhado de emigrantes que vinham passar o Natal com as suas famílias.

Quando cheguei a casa, telefonei ao Dr. Rijo, o reitor do Liceu, a solicitar-lhe um pequeno adiamento na minha ida para lá, uma vez que era inverno e eu tinha de adquirir algumas peças de roupa que me protegessem do frio gélido daquelas paragens…

Depois do Natal, os meus pais levaram-me, de automóvel para o meu novo destino. Já perto de Bragança, a carro ficou encalhado na espessa camada de neve que cobria a estrada. Tivémos de parar por algum tempo. Com as mãos e os pés gelados, batíamos os dentes como castanholas.

Chegámos a Bragança muito tempo depois do previsto e procurámos uma pensão, onde eu pudesse ficar. Indicaram-nos a “Pensão Moderno” que alojava, naquela altura, a maior parte dos professores deslocados.

Chegados então à Rua Almirante Reis, bem no centro da cidade, deparámo-nos com um edifício apalaçado e imponente.

Entrámos e, na recepção, fomos atendidos pela D. Cândida, uma senhora de sorriso amplo que nos deu as boas vindas com um sotaque tipicamente bragançano.

O meu pai exclamou, apreensivo: -“É a primeira vez que a nossa filha vem trabalhar para tão longe de casa. Estamos muito preocupados.”

A D. Cândida atalhou prontamente:-“Ide descansados, porque eu vou tratar dela como se fosse minha filha.”

Os meus pais partiram no dia seguinte, debaixo de um forte nevão, e eu fui conduzida a um quarto estreito e comprido, no último andar da pensão.

O mobiliário era parco, mas funcional e, num canto, havia um lavatório e um bidé. Os quartos estavam alinhados ao longo de um corredor de longas tábuas de “castanho”, que rangiam à nossa passagem. As escadarias, também de “castanho,” tinham uns degraus excessivamente altos, que constituíam um desafio mesmo para as pernas mais ágeis. Havia um pátio interior rodeado de muros e outro edifício que dava para a rua de trás, com quartos mais simples, destinados aos afoitos excursionistas que se atrevessem a visitar aquelas terras do “demo” inóspitas e frias.

Nesse andar, estavam alojadas outras professoras deslocadas, com as quais tomei logo conhecimento. A Túlia, a Olga e eu formámos logo um triunvirato imbatível. Preparávamos as aulas juntas e corrigíamos os testes sentadas à volta de uma mesa redonda com uma camilha que escondia uma braseira por debaixo.

No rés-do-chão da pensão havia o Café Moderno, que era frequentado apenas por homens. Quando, um dia resolvemos invadir aquele domínio masculino, para tomarmos uma bebida quente e vermos um pouco de televisão, fomos, de imediato, perscrutadas por olhos ávidos e maliciosos. Os nossos olhares cruzaram-se e pensámos: -“Será que viémos parar a um país do Médio Oriente?!”

Com o passar do tempo, os frequentadores do café habituaram-se à nossa presença e começámos a ficar mais descontraídas. No auge do inverno, até pedíamos ao empregado que nos servisse, longe dos olhares curiosos, um café numa chávena de chá com um cheirinho de aguardente para enganar o frio e, sobretudo quem nos observava com uma curiosidade mórbida e insistente.

Sé Velha de Bragança

O Liceu Nacional de Bragança funcionava junto à Sé Velha de Bragança, construída no século XVI para ter as funções de um convento.

No primeiro dia de aulas, lembro-me que caíu um nevão fortíssimo e a temperatura manteve-se quase sempre negativa, durante o inverno.

A água tinha gelado nos canos e passámos a ter direito apenas a um jarro de água morna por dia. Recordo que nesse ano, apenas tomei um banho a sério em casa dos meus pais, durante as férias da Páscoa!

Porém, logo arranjámos algumas fugas ao marasmo que era viver numa cidade recôndita, fustigada, à época, por uma onda de emigrantes que atravessavam a fronteira “a salto”, em busca de sustento para a família.

Assim, algumas vezes, íamos até ao único e desconfortável cinema da cidade, perto do mercado, ver um filme, geralmente de guerra ou de “cowboys”. Para enganar o frio, levávamos quase sempre duas botijas de água quente, bem escondidinhas – uma era para aquecer as mãos e outra para aquecer os pés.

Também íamos trabalhar para a Pousada de S. Bartolomeu, situada no topo de uma colina da Serra da Nogueira, de onde se vislumbrava uma paisagem magnífica, com a Espanha já em fundo e os cabeços das montanhas cobertos de um manto de neve de uma brancura imaculada. Aí, regalávamo-nos com o calor vindo de uma enorme lareira, junto da qual, invariavelmente, nos reuníamos, nos dias mais gélidos.

Lá em baixo, o rio Sabor corria lânguido, excepto, quando se transformava numa serpenteante estrada de gelo…

Bragança- Domus

Situado no centro da Cidadela, o imponente Castelo medieval, que remonta ao século XII dominava a paisagem, bem como a Domus Municipalis, o único exemplar de arquitectura Civil em estilo Românico na Península Ibérica.

Era um local misterioso, sobre o qual se contavam várias lendas como, por exemplo, a do casamento secreto de Pedro e Inês numa pequena igreja contígua ao Castelo ou a lenda da Princesa moura que viveu aprisionada na chamada Torre da Princesa, por motivos de amor.

Bragança - Torre da Princesa

Torre da Princesa 

Nesse ano de 1967, muitos militares que estavam a fazer a recruta no quartel da cidade, encontravam-se alojados na Pensão Moderno.

O Américo, filho dos donos da Pensão, mais conhecido por Beto tinha regressado, havia pouco tempo, da Guerra Colonial, imerso em pesadelos terríveis, em sobressaltos permanentes que lhe provocavam uma grande instabilidade emocional e que os seus olhos de um azul profundo eram incapazes de esconder.

Quando ele percorria as ruas da cidade ao volante do seu Lancia desportivo azul, as meninas não podiam deixar de suspirar…

Capítulo II

Os Serões na Pensão Moderno 

Começámos a conviver com alguns militares que encontrávamos à hora das refeições.

O Beto fazia parte desse grupo que integrava o Moscoso, o Henrique e o João. Reuníamos na Sala do piano, onde existia, ao fundo, um belíssimo relógio suíço de pé alto e de madeira pintada com coloridas flores românticas.

O Beto tocava ao piano as músicas das canções pessoalíssimas de Charles Aznavour, cantor francês muito em voga nessa época.

Organizávamos sessões de leitura de poesia, sendo os nossos poetas preferidos José Gomes Ferreira e José Régio que recitávamos em voz alta com uma emoção genuína.

Sentia uma grande atracção intelectual pelo João que, tal como eu, era apaixonado por Zé Gomes. Ainda há poucos dias, recomecei a leitura deste poeta e peguei no livro Poesia III, que ele tinha requisitado à Biblioteca Itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian.

O livro ainda hoje ostenta o recibo com a data da devolução. Quando soube que o João tinha morrido na guerra em Angola, nunca o devolvi, tornando-se o mesmo uma relíquia desse tempo em que havia uma grande energia idealista e ainda se fabricavam sonhos…

José Gomes Ferreira

José Gomes Ferreira tinha uma visão anti bucólica do país real e o seu canto era revolucionário, eu diria até premonitório da Revolução do 25 de Abril.

A sua poesia era uma arma de combate, uma bandeira desfraldada em defesa de oprimidos a quem se aponta, não a evasão pelo sonho, mas a invenção do futuro. Ele deu o salto para essa zona onde se afirma “o grito plural” e a vontade de transformar o mundo.

Este pequeno excerto de um poema seu demonstra-o claramente:

… Vai-te Poesia!

Deixa-me ver a vida

Exacta e intolerável

Neste planeta feito de carne humana a chorar

Onde um anjo me arrasta todas as noites para casa pelos cabelos 

Com bandeiras de lume nos olhos,

Para fabricar sonhos

Carregados de dinamite de lágrimas.

Vai-te, Poesia!

Não quero cantar,

Quero gritar!

Gostava tanto deste poeta, que gravei alguns dos seus poemas em cassetes que ouvia sem cessar, no meu quarto.

José Régio

José Régio era também um poeta que líamos alto, durante esses serões poéticos. Adoptámo-lo como um dos nossos poetas preferidos pela sua faceta rebelde e independência criadora. Na sua poesia existe uma forte vertente de empenhamento moral e social que nos atraía. Alguns críticos da sua obra afirmam mesmo que, com Régio, a Literatura se tornou auto consciente e reflexiva, pensativa e pensável. Apesar de ser considerado um poeta modernista, existe nele uma pulsão disruptiva que o conduz a uma subversão estética, a um afastamento de todos os tipos de academismo.

Em 1943, João Pedro de Andrade comparava a poesia de Régio a “uma pedra lançada a um lago, procurando cada vez maiores profundidades e traçando à superfície cada vez mais largos e harmoniosos círculos.”

Não é de estranhar, portanto, que o seu poema “CÂNTICO NEGRO” fosse o nosso preferido. Escolhemo-lo como símbolo da nossa geração, de uma luta contida contra a opressão e a falta de liberdade. Não resisto, assim, a transcrever a sua última estrofe:

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!

Ninguém me peça definições!

Ninguém me diga: “vem por aqui”!

A minha vida é um vendaval que se soltou.

É uma onda que se alevantou.

É um átomo a mais que se animou…

Não sei por onde vou,

Não sei para onde vou,

– Sei que não vou por aí!

Passado algum tempo, porém, a Olga começou a namorar o tenente Moscoso e a Túlia o Henrique. Ambos partiram para a Guerra Colonial. Mais tarde, o Moscoso regressou com graves problemas psicológicos, mas mesmo assim a Olga casou com ele.

O Henrique voltou sem uma perna e casou depois com a Túlia. O João, como eu já referi, morreu no mato, numa qualquer súbita emboscada.

Restava o Beto, por quem eu nutria uma paixão secreta e intensa.

Soube, mais tarde que ele tinha regressado a África, onde viveu quase até ao fim da sua vida.

Capítulo III

“Eu hei-de amar uma pedra”

António Lobo Antunes

Há pouco tempo, comecei a ler este romance de António Lobo Antunes publicado em 2004 pelas Publicações Dom Quixote.

Para mim, que já tinha lido alguns romances anteriores deste escritor, achei-o difícil, desconstruído.

Era assim como um quadro de Picasso, em que os olhos caiam do rosto e nada estava no sítio certo. Lobo Antunes subverte as convenções narrativas, tendo inventado uma linguagem própria, desarticulada e livre dos tradicionais registos.

O tema fulcral deste romance é mesmo a impossibilidade do amor.

Nele, o autor revisita lugares antes habitados por si, fundindo, assim, passado e presente, num jogo de palavras aparentemente desconexas. Aliás, qualquer romance seu é sempre uma viagem radical, vertiginosa e labiríntica que espicaça, com crueza e realismo, o mundo secreto da nossa própria mente, como se estivéssemos deitados num divã de um psiquiatra, pondo a nu todos os nossos traumas.

Ele gosta de explorar a sensibilidade psicológica das suas personagens e este romance tem como enredo uma história de amor verídico.

“Não consigo conceber uma história onde as personagens não tenham carne. E se eu partir de uma carne já real para mim, torna-se muito mais fácil.”- In Expresso, 7 de Novembro de 1992

 Na primeira parte do romance há uma sucessão de fotografias que servem de ponte entre o passado e o presente.

Em “flash-back”, surgem memórias da Guerra Colonial na Guiné, misturadas com cenas da vida presente em que elementos da família desfilam num cortejo, misturados com outras pessoas que fazem parte do passado e do presente do autor.

Surgem árvores, flores, gaivotas, mar, telões que tornam as fotografias mais artificiais, lembrando mesmo cenas de um Oriente longínquo, como marcas de um Império que já não é nosso.

A Photo Royal Lda., repositório de muitas fotos de familiares seus, torna-se o centro de partida para a vivência de memórias do passado. Eis se não quando, surge, na legenda de uma fotografia, a seguinte frase:

“elisa adora beto” (pág. 138, linha 5).

Não pude deixar de pensar nessa estranha coincidência…

E foi esta simples frase que me inspirou a escrever este texto e a reviver esta fase conturbada da minha vida, entre Bragança e Vinhais, durante quinze anos.

Elisa Araújo

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