De Paris para Bragança

Capítulo I

Da Luz às Trevas

No ano de 1966 fui passar umas prolongadas férias de verão em casa de uns primos, em Paris, a cidade mítica da época.

Fiquei deslumbrada com a atmosfera da cidade, os seus monumentos, praças, jardins e amplas avenidas, os grandes armazéns, as margens do Sena, o Quartier Latin. Com o mapa da cidade nas mãos, visitei tudo o que me foi possível, compulsivamente.

Na minha cabeça ecoavam as canções intimistas e viscerais de alguns cantores franceses da época: Charles Aznavour, o belga Jacques Brel, Edith Piaf, Gilbert Bécaud, Serge Gainsbourg e sobretudo Léo Ferré, poeta, compositor, cantor e anarquista. A sua canção “Avec le Temps”, com um profundo cunho nihilista, tornara-se o hino da juventude da época (“Avec le Temps va, tout s’en va…”)

Anos mais tarde, em 1982, tive o privilégio de ir assistir a um concerto do Léo Ferré, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. O bilhete foi-me oferecido por uma amiga como prenda de aniversário. Saímos de lá as duas emocionadas. Posso dizer que foi uma experiência inesquecível

A canção francesa estava na moda e o existencialismo de Sartre seduzia a juventude ocidental privada de referências. Era como que uma reacção libertária contra todos os ditames dos poderes instituídos.

moulin-rouge-paris-night

Para completar a visita à cidade Luz, os meus primos levaram-me a conhecer as noites feéricas da cidade, os cabarets, os “caveaux”, os espectáculos de “can-can”, as zonas do Pigalle e Montmartre com a diversidade da sua fauna humana.

É certo que já visitara Londres em 1960, onde permaneci durante três meses e que também tinha ficado fascinada por esta cidade, mas Paris tem a Luz, as esplanadas, os jardins de canteiros floridos e uma atmosfera única e profundamente romântica.

Por cá, eu já tinha assistido à crise académica de 1962/63, decorrente da proibição do Dia do Estudante pelo Estado Novo, à greve de fome na Cantina da Cidade Universitária, aos discursos inflamados de Jorge Sampaio, o líder estudantil da época, a quem as meninas de Letras chamavam “o ruivo dório invasor”.

Nesse ano, tinha concorrido como professora para todo o país e, enquanto não sabia o resultado do concurso, aproveitei ao máximo as minhas férias em Paris. Parecia que suspeitava que a minha vida ia sofrer uma grande reviravolta…

Um dia de dezembro, o meu pai telefona-me e diz-me: -“Foste colocada no Liceu de Bragança. Tens de regressar rapidamente para ires tomar posse!”

Regressei à pressa num comboio apinhado de emigrantes que vinham passar o Natal com as suas famílias.

Quando cheguei a casa, telefonei ao Dr. Rijo, o reitor do Liceu, a solicitar-lhe um pequeno adiamento na minha ida para lá, uma vez que era inverno e eu tinha de adquirir algumas peças de roupa que me protegessem do frio gélido daquelas paragens…

Depois do Natal, os meus pais levaram-me, de automóvel para o meu novo destino. Já perto de Bragança, a carro ficou encalhado na espessa camada de neve que cobria a estrada. Tivémos de parar por algum tempo. Com as mãos e os pés gelados, batíamos os dentes como castanholas.

Chegámos a Bragança muito tempo depois do previsto e procurámos uma pensão, onde eu pudesse ficar. Indicaram-nos a “Pensão Moderno” que alojava, naquela altura, a maior parte dos professores deslocados.

Chegados então à Rua Almirante Reis, bem no centro da cidade, deparámo-nos com um edifício apalaçado e imponente.

Entrámos e, na recepção, fomos atendidos pela D. Cândida, uma senhora de sorriso amplo que nos deu as boas vindas com um sotaque tipicamente bragançano.

O meu pai exclamou, apreensivo: -“É a primeira vez que a nossa filha vem trabalhar para tão longe de casa. Estamos muito preocupados.”

A D. Cândida atalhou prontamente:-“Ide descansados, porque eu vou tratar dela como se fosse minha filha.”

Os meus pais partiram no dia seguinte, debaixo de um forte nevão, e eu fui conduzida a um quarto estreito e comprido, no último andar da pensão.

O mobiliário era parco, mas funcional e, num canto, havia um lavatório e um bidé. Os quartos estavam alinhados ao longo de um corredor de longas tábuas de “castanho”, que rangiam à nossa passagem. As escadarias, também de “castanho,” tinham uns degraus excessivamente altos, que constituíam um desafio mesmo para as pernas mais ágeis. Havia um pátio interior rodeado de muros e outro edifício que dava para a rua de trás, com quartos mais simples, destinados aos afoitos excursionistas que se atrevessem a visitar aquelas terras do “demo” inóspitas e frias.

Nesse andar, estavam alojadas outras professoras deslocadas, com as quais tomei logo conhecimento. A Túlia, a Olga e eu formámos logo um triunvirato imbatível. Preparávamos as aulas juntas e corrigíamos os testes sentadas à volta de uma mesa redonda com uma camilha que escondia uma braseira por debaixo.

No rés-do-chão da pensão havia o Café Moderno, que era frequentado apenas por homens. Quando, um dia resolvemos invadir aquele domínio masculino, para tomarmos uma bebida quente e vermos um pouco de televisão, fomos, de imediato, perscrutadas por olhos ávidos e maliciosos. Os nossos olhares cruzaram-se e pensámos: -“Será que viémos parar a um país do Médio Oriente?!”

Com o passar do tempo, os frequentadores do café habituaram-se à nossa presença e começámos a ficar mais descontraídas. No auge do inverno, até pedíamos ao empregado que nos servisse, longe dos olhares curiosos, um café numa chávena de chá com um cheirinho de aguardente para enganar o frio e, sobretudo quem nos observava com uma curiosidade mórbida e insistente.

Sé Velha de Bragança

O Liceu Nacional de Bragança funcionava junto à Sé Velha de Bragança, construída no século XVI para ter as funções de um convento.

No primeiro dia de aulas, lembro-me que caíu um nevão fortíssimo e a temperatura manteve-se quase sempre negativa, durante o inverno.

A água tinha gelado nos canos e passámos a ter direito apenas a um jarro de água morna por dia. Recordo que nesse ano, apenas tomei um banho a sério em casa dos meus pais, durante as férias da Páscoa!

Porém, logo arranjámos algumas fugas ao marasmo que era viver numa cidade recôndita, fustigada, à época, por uma onda de emigrantes que atravessavam a fronteira “a salto”, em busca de sustento para a família.

Assim, algumas vezes, íamos até ao único e desconfortável cinema da cidade, perto do mercado, ver um filme, geralmente de guerra ou de “cowboys”. Para enganar o frio, levávamos quase sempre duas botijas de água quente, bem escondidinhas – uma era para aquecer as mãos e outra para aquecer os pés.

Também íamos trabalhar para a Pousada de S. Bartolomeu, situada no topo de uma colina da Serra da Nogueira, de onde se vislumbrava uma paisagem magnífica, com a Espanha já em fundo e os cabeços das montanhas cobertos de um manto de neve de uma brancura imaculada. Aí, regalávamo-nos com o calor vindo de uma enorme lareira, junto da qual, invariavelmente, nos reuníamos, nos dias mais gélidos.

Lá em baixo, o rio Sabor corria lânguido, excepto, quando se transformava numa serpenteante estrada de gelo…

Bragança- Domus

Situado no centro da Cidadela, o imponente Castelo medieval, que remonta ao século XII dominava a paisagem, bem como a Domus Municipalis, o único exemplar de arquitectura Civil em estilo Românico na Península Ibérica.

Era um local misterioso, sobre o qual se contavam várias lendas como, por exemplo, a do casamento secreto de Pedro e Inês numa pequena igreja contígua ao Castelo ou a lenda da Princesa moura que viveu aprisionada na chamada Torre da Princesa, por motivos de amor.

Bragança - Torre da Princesa

Torre da Princesa 

Nesse ano de 1967, muitos militares que estavam a fazer a recruta no quartel da cidade, encontravam-se alojados na Pensão Moderno.

O Américo, filho dos donos da Pensão, mais conhecido por Beto tinha regressado, havia pouco tempo, da Guerra Colonial, imerso em pesadelos terríveis, em sobressaltos permanentes que lhe provocavam uma grande instabilidade emocional e que os seus olhos de um azul profundo eram incapazes de esconder.

Quando ele percorria as ruas da cidade ao volante do seu Lancia desportivo azul, as meninas não podiam deixar de suspirar…

Capítulo II

Os Serões na Pensão Moderno 

Começámos a conviver com alguns militares que encontrávamos à hora das refeições.

O Beto fazia parte desse grupo que integrava o Moscoso, o Henrique e o João. Reuníamos na Sala do piano, onde existia, ao fundo, um belíssimo relógio suíço de pé alto e de madeira pintada com coloridas flores românticas.

O Beto tocava ao piano as músicas das canções pessoalíssimas de Charles Aznavour, cantor francês muito em voga nessa época.

Organizávamos sessões de leitura de poesia, sendo os nossos poetas preferidos José Gomes Ferreira e José Régio que recitávamos em voz alta com uma emoção genuína.

Sentia uma grande atracção intelectual pelo João que, tal como eu, era apaixonado por Zé Gomes. Ainda há poucos dias, recomecei a leitura deste poeta e peguei no livro Poesia III, que ele tinha requisitado à Biblioteca Itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian.

O livro ainda hoje ostenta o recibo com a data da devolução. Quando soube que o João tinha morrido na guerra em Angola, nunca o devolvi, tornando-se o mesmo uma relíquia desse tempo em que havia uma grande energia idealista e ainda se fabricavam sonhos…

José Gomes Ferreira

José Gomes Ferreira tinha uma visão anti bucólica do país real e o seu canto era revolucionário, eu diria até premonitório da Revolução do 25 de Abril.

A sua poesia era uma arma de combate, uma bandeira desfraldada em defesa de oprimidos a quem se aponta, não a evasão pelo sonho, mas a invenção do futuro. Ele deu o salto para essa zona onde se afirma “o grito plural” e a vontade de transformar o mundo.

Este pequeno excerto de um poema seu demonstra-o claramente:

… Vai-te Poesia!

Deixa-me ver a vida

Exacta e intolerável

Neste planeta feito de carne humana a chorar

Onde um anjo me arrasta todas as noites para casa pelos cabelos 

Com bandeiras de lume nos olhos,

Para fabricar sonhos

Carregados de dinamite de lágrimas.

Vai-te, Poesia!

Não quero cantar,

Quero gritar!

Gostava tanto deste poeta, que gravei alguns dos seus poemas em cassetes que ouvia sem cessar, no meu quarto.

José Régio

José Régio era também um poeta que líamos alto, durante esses serões poéticos. Adoptámo-lo como um dos nossos poetas preferidos pela sua faceta rebelde e independência criadora. Na sua poesia existe uma forte vertente de empenhamento moral e social que nos atraía. Alguns críticos da sua obra afirmam mesmo que, com Régio, a Literatura se tornou auto consciente e reflexiva, pensativa e pensável. Apesar de ser considerado um poeta modernista, existe nele uma pulsão disruptiva que o conduz a uma subversão estética, a um afastamento de todos os tipos de academismo.

Em 1943, João Pedro de Andrade comparava a poesia de Régio a “uma pedra lançada a um lago, procurando cada vez maiores profundidades e traçando à superfície cada vez mais largos e harmoniosos círculos.”

Não é de estranhar, portanto, que o seu poema “CÂNTICO NEGRO” fosse o nosso preferido. Escolhemo-lo como símbolo da nossa geração, de uma luta contida contra a opressão e a falta de liberdade. Não resisto, assim, a transcrever a sua última estrofe:

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!

Ninguém me peça definições!

Ninguém me diga: “vem por aqui”!

A minha vida é um vendaval que se soltou.

É uma onda que se alevantou.

É um átomo a mais que se animou…

Não sei por onde vou,

Não sei para onde vou,

– Sei que não vou por aí!

Passado algum tempo, porém, a Olga começou a namorar o tenente Moscoso e a Túlia o Henrique. Ambos partiram para a Guerra Colonial. Mais tarde, o Moscoso regressou com graves problemas psicológicos, mas mesmo assim a Olga casou com ele.

O Henrique voltou sem uma perna e casou depois com a Túlia. O João, como eu já referi, morreu no mato, numa qualquer súbita emboscada.

Restava o Beto, por quem eu nutria uma paixão secreta e intensa.

Soube, mais tarde que ele tinha regressado a África, onde viveu quase até ao fim da sua vida.

Capítulo III

“Eu hei-de amar uma pedra”

António Lobo Antunes

Há pouco tempo, comecei a ler este romance de António Lobo Antunes publicado em 2004 pelas Publicações Dom Quixote.

Para mim, que já tinha lido alguns romances anteriores deste escritor, achei-o difícil, desconstruído.

Era assim como um quadro de Picasso, em que os olhos caiam do rosto e nada estava no sítio certo. Lobo Antunes subverte as convenções narrativas, tendo inventado uma linguagem própria, desarticulada e livre dos tradicionais registos.

O tema fulcral deste romance é mesmo a impossibilidade do amor.

Nele, o autor revisita lugares antes habitados por si, fundindo, assim, passado e presente, num jogo de palavras aparentemente desconexas. Aliás, qualquer romance seu é sempre uma viagem radical, vertiginosa e labiríntica que espicaça, com crueza e realismo, o mundo secreto da nossa própria mente, como se estivéssemos deitados num divã de um psiquiatra, pondo a nu todos os nossos traumas.

Ele gosta de explorar a sensibilidade psicológica das suas personagens e este romance tem como enredo uma história de amor verídico.

“Não consigo conceber uma história onde as personagens não tenham carne. E se eu partir de uma carne já real para mim, torna-se muito mais fácil.”- In Expresso, 7 de Novembro de 1992

 Na primeira parte do romance há uma sucessão de fotografias que servem de ponte entre o passado e o presente.

Em “flash-back”, surgem memórias da Guerra Colonial na Guiné, misturadas com cenas da vida presente em que elementos da família desfilam num cortejo, misturados com outras pessoas que fazem parte do passado e do presente do autor.

Surgem árvores, flores, gaivotas, mar, telões que tornam as fotografias mais artificiais, lembrando mesmo cenas de um Oriente longínquo, como marcas de um Império que já não é nosso.

A Photo Royal Lda., repositório de muitas fotos de familiares seus, torna-se o centro de partida para a vivência de memórias do passado. Eis se não quando, surge, na legenda de uma fotografia, a seguinte frase:

“elisa adora beto” (pág. 138, linha 5).

Não pude deixar de pensar nessa estranha coincidência…

E foi esta simples frase que me inspirou a escrever este texto e a reviver esta fase conturbada da minha vida, entre Bragança e Vinhais, durante quinze anos.

Elisa Araújo

«A PESTE GRISALHA»

Decididamente este país não é para velhos…

Decorria o ano de 2011 e, eis senão quando, é publicada e revelada na TV uma notícia que abalou o marasmo habitual dos programas televisivos – uma idosa foi encontrada morta num andar de um prédio da Rinchoa. Há nove anos que jazia morta no chão da cozinha, bem como o seu cão e os pássaros, únicos companheiros da sua imensa solidão. Espanto! Durante nove anos, ninguém se importou com ela e o fisco é que a descobriu, já esqueleto…

Para o comum da sociedade é menos um velho a aliviar as estatísticas, para o Governo, menos uma pensão de miséria que tem de pagar. É também menos um número no rol da solidão dos idosos, menos um peso morto para os seus familiares, mas será, com certeza, um peso na consciência de todos nós, que perdemos o sentido de comunidade e solidariedade, vivendo apenas a olhar para o nosso umbigo, preocupados com um quotidiano fastidioso e alienante, sem espaço e tempo para os outros.

Em conclusão: quase nada funciona neste país, a não ser a máquina trituradora do fisco, a única que descobriu o cadáver desta idosa morta há nove anos!

O jornalista José Manuel Fernandes escreveu assim, no Jornal «Público»:” Tinha de acontecer. Porque não há maior solidão do que viver de portas trancadas no meio dessas colmeias suburbanas. Porque todos estão apressados (para ver as telenovelas) ou todos estão desinteressados (para não terem de abrir um auto lá na esquadra). Só o fisco não dorme. Somos cidadãos para ter um cartão que atrapalha, mas somos sobretudo servos dos impostos, súbditos do fisco, pois só ele nunca se esquece nem nunca perdoa. Como não se esqueceu de Augusta Duarte Martinho. Por isso chegou primeiro que todos os outros serviços do Estado à Praceta das Amoreiras, e chegou para tomar conta, friamente, de um apartamento penhorado com uma idosa morta lá dentro…”

Lisboa Domiciliária

Veio-me à memória, entretanto, um filme-documentário realizado por Marta Pessoa, com o título: «LISBOA DOMICILIÁRIA», precisamente sobre a geração castigada – “os velhos”.

 Como cinéfila empedernida, não pude deixar de ver este  filme-denúncia, que me deixou “um amargo de boca”, pois ele abre-nos as portas de uma Lisboa escondida, que nos faz estremecer e nos interroga sobre o sentido da vida.

É um filme que incomoda, porque levanta questões pelas quais todos nós somos, em parte, responsáveis directa ou indirectamente. Passou quase despercebido à maioria das pessoas, talvez devido ao facto de se abeirar dos excluídos, dos que vivem na margem!

A jornalista Clara Ferreira Alves, num artigo do jornal “EXPRESSO”, para além de abordar o problema dos “velhos”, também se refere a uma outra geração: a “geração à rasca”, sobre a qual existe um hino, ou seja uma canção do grupo musical “OS DEOLINDA”, da qual vou transcrever a última estrofe:

…………….

Sou da geração ‘vou queixar-me para quê?’

Há alguém bem pior do que eu na TV.

Que parva que eu sou!

Sou da geração ‘eu já não posso mais!’

Que esta situação dura há tempo demais

E parva não sou!

E fico a pensar,

Que mundo tão parvo

Onde para ser escravo é preciso estudar.

……………

Na verdade, em plena situação de crise, os jovens despertaram da apatia em que estavam mergulhados e vieram para a rua denunciar os seus problemas e sentimentos em relação ao seu futuro. Muitos até tiveram de emigrar ou sujeitarem-se a empregos precários pagos a “recibos verdes” ou ainda a não abandonarem a casa dos pais e a adiarem os seus sonhos. Mas eles vão, mal ou bem, encontrando soluções de sobrevivência.

No entanto, segundo a jornalista supra citada, a única geração mais sacrificada foi a dos “velhos” que suportaram o fascismo, a carência de bens alimentares no pós-guerra, a falta de liberdade, o machismo e agora sofrem o abandono das famílias e da sociedade em geral. Vivem sós, com os seus familiares à distância, com os parcos apoios da Segurança Social ou do trabalho de voluntários, de esmolas dos vizinhos, longe do mundo real, de um afago, um sorriso, uma palavra de amor que lhes mitigue a solidão e os faça acreditar que a solidariedade ainda existe! Puro engano!

Voltando ao filme-documentário, a que já anteriormente me referiu, pouca gente o devia ter visto, talvez por não ser um “block buster”, um filme alienante, com efeitos especiais e monstros a fingir de humanos, mas antes um filme profundamente realista e amargo que levanta questões sobre o sentido da vida e o nosso papel neste mundo.

Foi realizado sem quaisquer apoios, porque a sua temática constitui um libelo contra a alienação social relativamente aos excluídos que vivem solitários, entre quatro paredes, nos degradados prédios de Lisboa antiga, nos bairros típicos, dentro das muralhas do Castelo, onde, noite fora, proliferam grupos de jovens que se divertem, bebendo ou consumindo drogas, completamente alheios ao que se passa à sua volta.

Com certeza que os nossos governantes não viram este documentário. Preferiram “assobiar para o lado” e fingir que está tudo bem, a caminho da recuperação da Economia.

Aliás, “a peste grisalha” foi um termo inventado por um representante deste País no Parlamento…

Entretanto, as estatísticas dizem que Portugal é o país, onde os idosos estão mais desprotegidos…

Elisa Araújo

«LOUVOR À COSTA DA CAPARICA»

Primeira Parte

«Com o snobismo de um alentejano transplantado para Lisboa aos 5 anos, sempre achara que “ir à Costa da Caparica é foleiro”. Como me enganava! Desde que vim para Inglaterra, a Costa da Caparica tornou-se num símbolo do paraíso para mim, o tipo de praia a ser usado nos anúncios do Bacardi. E foi em demanda do equivalente britânico da Caparica que lhe comecei a dar o devido valor». (“BIFES MAL PASSADOS”, livro de João Magueijo- capítulo 2).

Este livro de crónicas sobre os preconceitos, taras, hábitos e costumes e outros excessos dos Ingleses é de rir até às lágrimas, mas também é uma obra séria que, ao mesmo tempo, incita os portugueses a não terem complexos de inferioridade!

É completamente obsessivo o seu delirante apego à tradição e o autor dá-nos disso um exemplo, ao referir-se ao facto de a múmia do filósofo Jeremy Bentham, fundador do University College London e morto em1832, ainda hoje assistir às reuniões mais importantes do concílio da Universidade, aparecendo nas actas com a indicação «presente, mas não-votante» …

Tudo aquilo que o autor descreve com imenso sentido de humor é intensamente corroborado principalmente por quem já teve a oportunidade de viver algum tempo em Terras de Sua Majestade. Passemos então aos factos.

Em 1960, passei alguns meses em Inglaterra com uma colega e amiga dos tempos do Liceu Filipa e da Faculdade. Ainda hoje nos interrogamos como é que os nossos pais nos deixaram ir à aventura, sozinhas, para Terras de Sua Majestade…

Fomos desempenhar o trabalho de “baby-sitters” em casa de uma típica família inglesa de classe média alta que residia numa mansão rodeada de um jardim de um verde intenso, um pomar, uma estufa e uma vista magnífica para o mar.

Estávamos em Torquay, a chamada Riviera inglesa e pensámos:” OK, se assim é, talvez o clima seja mais ameno e possamos, de vez enquando, dar uma escapadela à praia”.

Eram frequentes os nossos passeios aos “moors”– extensas áreas de terreno pantanoso, onde só se podia chapinhar de galochas. Para nós esses passeios eram penosos, principalmente quando caía uma chuva miudinha e persistente que envolvia toda a paisagem de tons nebulosos e sombrios.

Não é por acaso que existem mais de 50 palavras ou expressões em inglês para traduzir “a chuva” ou “o chover”, segundo o autor deste livro, que chega mesmo a afirmar que “a pluviosidade britânica é mesmo só para maçar. Falar do tempo aqui não é uma questão de cavaqueira: o clima é temperamental, uma telenovela, algo de imprevisível e que preenche os pensamentos…”

Como eu o compreendo, pois constatei que o tema preferido dos ingleses para iniciar uma conversa é inevitavelmente o clima.

Nas tardes quase sempre chuvosas, doía-nos o coração só de vermos a bebé Jane a dormir a sua sesta dentro do carrinho plantado no vasto relvado húmido do jardim, permanentemente regado por uma chuva miudinha e incómoda.

Quando vimos a Jane descalça a dar os primeiros passos pela relva húmida, conseguimos convencer a mãe a comprar-lhe uns sapatos. Porém, qual não foi o nosso espanto, quando, um dia, a vimos, hesitante, a caminhar com umas galochas vermelhas calçadas…

Mansão inglesa (2)

A mansão estava situada num local elevado e para chegarmos ao centro de Torquay tínhamos de calcorrear uma rua íngreme e escorregadia de humidade. Constituía uma autêntica prova de esforço e de perícia a passagem por essa rua com a bebé no carrinho, tanto mais que as solas das nossa “sabrinas” já estavam tão gastas, que facilmente podíamos derrapar no piso sempre viscoso.

Depois deste breve retorno ao passado que serve para corroborar as afirmações do autor deste livro sobre o clima britânico, passemos a uma sua descrição de uma praia inglesa: “O resultado é que quando a maré não está cheia e na sua plenitude, a «praia» torna-se um mudflat (uma planície de lama): o mar está lá muito ao longe, nem se vê, e onde na maré alta estava água, está agora um lamaçal povoado por vermes enrolados, um pântano de esterco, chama-lhe praia se quiseres ser parvo como eles.” (Capítulo 2, pág. 29)

Posso afirmar que esta é uma descrição fidedigna de uma qualquer praia inglesa.

Vêm-me à ideia as nossas idas à praia. No pino do verão tínhamos de ir bem agasalhadas e nunca nos podíamos estender à beira-mar, pois não havia areia, mas antes montes de pequenas pedras escuras e lodosas que dificultavam o andar ao mais destemido caminhante!

A água do mar era escura e baça, tal como o autor deste livro a descreve e, para além das pedras, havia sempre um extenso lodaçal que poucos se atreviam a pisar.

Mas, qual não foi o nosso espanto ao vermos casais envolvidos em jogos de amor deitados naquelas pedras! Vindas de um país altamente repressivo e conservador em termos de costumes, esses actos constituíram para nós, uma autêntica pedrada no charco…

 

Segunda Parte

Posto isto, resolvi ir dar um passeio até à Costa da Caparica no primeiro dia do ano de 2015. Na curta viagem para lá, o Sol, na sua plenitude, batia-me no rosto, mal me deixando vislumbrar a paisagem. Mesmo assim, pude contemplar, deslumbrada, as falésias descarnadas, envoltas ainda num leve manto de neblina. O céu era de um azul intenso. Fui-me aproximando da praia. Ainda havia areia, embora já não com a brancura de outrora! O Sol, num ímpeto de vaidade, reflectia-se no espelho do mar liso e calmo. Montes de gente passeava paredão fora, com um brilho no olhar, talvez de esperança num ano um pouco mais folgado, convivendo, passeando os seus animais de estimação.

Alguns feirantes tinham disposto as suas bancas de velharias mais perto da praia, na mira de atrair mais freguesia.

Cabo Espichel

Ao longe, destacava-se o dorso imponente e majestoso do Cabo Espichel coberto por um fino manto de névoa, qual navio fantasma rompendo oceano adentro.

Vieram-me à cabeça os verões da minha juventude naquela extensão de areia fina e branca, os passeios à beira-mar, as estadias em casa de uma tia, na praia da Fonte da Telha, onde, à noite, na cama, ouvia o ruído embalador do mar, que me trazia à memória histórias de sereias enfeitadas de búzios ou, quando bravio e ruidoso, de aterradores monstros marinhos que me causavam pesadelos e suores frios de medo…

Embora longe da beleza de outros tempos, a Costa da Caparica, não sendo já o Estoril da outra Banda, conserva ainda a sua beleza única, principalmente ao pôr-do-sol, com Lisboa ao fundo.

O frio começava a entranhar-se no corpo e decidi regressar a casa. Agora, já não tinha por companheiro o brilho intenso do sol, mas antes a face incompleta e branca da lua plasmada no céu ainda límpido e azul.

Este curto passeio constituiu uma pausa na penitência imposta por um inverno excessivamente frio e demonstrou-me, mais uma vez, que a felicidade se encontra escondida em pequenas coisas que descobrimos no nosso dia-a-dia.

Depois de tudo isto, como eu compreendo o amor que o autor deste livro nutre pela praia da Costa da Caparica!

Elisa Araújo

Foi numa manhã de verão quente em que o sol sufocava que eu combinei ir almoçar com o meu filho ao Bairro Alto.

camões

No Largo Camões havia uma multidão de turistas ávidos de bom tempo. Sentei-me num banco de pedra, perto do quiosque tipicamente português, onde à sombra das parcas árvores, muitas pessoas tentavam amenizar o calor tórrido com umas bebidas frescas. Dei conta que me encontrava no epicentro de uma babilónia de línguas que, por momentos, me fez imaginar que estava fora de Portugal, não fora a visão da estátua do grande poeta Camões, o símbolo da grandeza do nosso Império perdido. Reparei que quase todos os turistas lhe tiravam fotografias sofregamente, de todos os ângulos. Algumas eram “selfies” com a figura do poeta em fundo. Por vezes, um pombo mais afoito pousava-lhe na cabeça, orgulhoso daquele local altaneiro, de onde podia observar as multidões, a azáfama do Largo àquela hora, o vaivém dos tucks-tucks coloridos e ruidosos circulando pela zona, a abarrotar de turistas curiosos de máquina fotográfica assestada, sempre pronta a disparar a qualquer momento.

A Esplanada da Brasileira, palco de tantas tertúlias modernistas, estava também apinhada de gente alegre, bebericando refrescos ou a tão portuguesa “bica”. Ali perto, outro grande poeta português, Fernando Pessoa, impávido perante todo o cenário que o envolvia, posava hirto e solene para as fotografias da praxe, fazendo as delícias de turistas curiosos que não sabiam que ele, ao contrário do grande bardo Luís de Camões, tinha cantado o avesso do Império português, os sacrifícios de gente anónima pela sua conquista, as mortes, as lágrimas de muitas mães, as lutas contra mares tormentosos e traiçoeiros.

No derradeiro poema do seu Livro “A Mensagem “ele define, com toda a lucidez, um retrato perfeitamente actual de Portugal: “Nem rei, nem lei,/ nem paz nem guerra,/ define com perfil e ser/Este fulgor baço da terra/ Que é Portugal a entristecer…./Tudo é incerto e derradeiro./Tudo é disperso, nada é inteiro,/Ó Portugal, hoje és nevoeiro…/É a Hora!

Havia música por ali – uma fusão de sons de vários géneros e proveniências, que dava um ambiente festivo àquele local mágico. Por momentos, esqueci-me da profunda crise em que o país está mergulhado, da fome e miséria que entrou de rompante em muitos lares dos nossos compatriotas, dos sem-abrigo, dos jovens que tiveram de emigrar, do desemprego, dos “recibos verdes” e dos trabalhos precários.

A chegada do meu filho amenizou-me por completo estas negras cogitações e, alegremente, fomos almoçar ao restaurante “O Cantinho do Bem-Estar”, no Bairro Alto. Aí a comida é genuinamente portuguesa, sem toques de maneirismos “gourmet”. Comemos bem e à portuguesa e a conversa foi animada. Foi com muita pena nossa, que chegou a hora de cada um ir à sua vida.

Desci de novo até ao Largo e, de repente, abeirou-se de mim uma jovem com um punhado de papéis debaixo do braço. Dirigiu-se-me dizendo: “ Escrevo poesia e tenho até alguns livros publicados, mas não se vendem. Parece que já ninguém liga à Poesia… A senhora gosta de poesia?” – “Sim, gosto até bastante.” –“Então, faça-me um favor: escolha um destes meus poemas e compre-o pelo dinheiro que me puder dar. É para a minha sobrevivência…”

Acreditei e fiquei emocionada. Não resisti a comprar-lhe este poema que vou copiar e que me fez chegar as lágrimas aos olhos por me fazer pensar em todos os jovens desempregados deste país que até já as suas próprias palavras vendem…

As palavras são asas que voam
Pássaros negros que não se demoram ao olhar
Escrevo porque o silêncio é uma habitação fria e descarnada
Ao abandono.
Solicitude de folhas em queda na árvore da manhã.
Síntese de medo inquieto, de vento gotas.
No traçar do rosto alguma luz queima a pele
Condescendente.
Escrevo porque só assim sei gritar
E esse grito tem garras e gumes
Mãos que estrangulam, lábios que beijam.

Leonora Rosado – Setembro 2014

Este poema fez-me lembrar uns últimos versos de José Jorge Letria, que passo a citar: “País baixo é o que se agacha/ante o esquecimento. Convoca de novo os poetas/ e dá-lhes as cadeiras sem história/ dos teus diligentes e euro viajantes deputados./ A poesia, podes crer, é outra coisa. É outro mundo.”

A propósito, lembrei-me de um artigo publicado no Jornal “Público” precisamente sobre Poesia. Os textos eram da autoria de alguns jovens poetas portugueses, cujas afirmações são inteiramente corroboradas por mim.

Manuel Margarido, por exemplo, diz que a Poesia é a arte portuguesa por excelência. É melhor ou pelo menos mais autêntica do que qualquer outra expressão artística. É a única arte verdadeira, autónoma em Portugal. Todas as outras artes sempre foram cá uma imitação ou um reflexo do que se fazia lá fora. A Poesia em Portugal é espontânea e original, livre de factores externos. Não precisa de influências para ter voz própria. Surge em força, sempre que a sociedade estagna ou se estrangula, sempre que se ganha ou perde a Liberdade! Outro poeta da nova vaga, Manuel de Freitas afirma mesmo que a poesia é um valor em si. Não tem de estar ligada a ideologias ou idealizações. É puxada para a realidade, para o quotidiano. Não tem de limar as arestas da realidade, mas de as exibir. Marta Chaves chega a afirmar que é por não ter quaisquer ambições lucrativas que a poesia é livre.
Nesse mesmo artigo, Diogo Vaz Pinto, refere que com a extinção da classe média, acaba o público da poesia, lembrando que há apenas 150 a 200 pessoas em Portugal interessadas em poesia. O resto da população não quer saber, não precisa. Há demasiados divertimentos. O tédio já não é uma fera. E o tédio é o grande motor da literatura.

Espero que muitos leitores gostem deste arrazoado de palavras, incluindo todos aqueles que não apreciam Poesia.

 Elisa Araújo

À entrada deste miradouro, situado em plena região do Douro Vinhateiro, encontra-se escrito numa lápide de granito o poema de Miguel Torga “Ortografia”:

“Fragas da serra, duras testemunhas
De acusação do tempo, Orfeu cansado
Que descarna os poemas e os desenha.
Cada perfil ossudo debruçado
Sobre o abismo a que vive condenado
E onde o próprio silêncio se despenha.”

“Quando subi ao Miradouro de S. Leonardo da Galafura tive a estranha sensação de me encontrar com os pés assentes na terra e, ao mesmo tempo no céu, porque havia um manto de nuvens a cobrir as encostas das serras, deixando a descoberto os seus cabeços arredondados, quais sentinelas de uma paisagem única pela sua rara beleza, que me deixou quase em transe, ali, à beira do abismo, sem poder voar…
Sorvi, com volúpia, o cheiro da terra húmida e das plantas silvestres que atapetavam esse local mágico.
Bem perto, inscritos numa pedra granítica, os versos de Miguel Torga prestam homenagem a esse santuário natural, tão propício à meditação sobre os desígnios da vida.
Tal como o poeta, imaginei-me à proa de um navio de penedos, navegando em direcção a um cais divino.
Senti que tinha entrado num templo, à beira-rio plantado, onde a voz do silêncio me fez pulsar o coração e o desejo de ali permanecer mais tempo até que um raio de sol rasgasse essa cortina de nuvens e me deixasse redescobrir, deslumbrada, o verde dos socalcos, a faina das vindimas, o doce odor das vinhas já podadas…
Pensei: quando o cheiro ácido do mosto chegar ao céu, este há-de abrir-se e então poderei admirar, de novo, o rio correndo veloz, no desejo de beijar as fragas que com ele coabitam.

Esse milagre aconteceu e, pouco depois, pude deleitar-me mais uma vez, com a paisagem deslumbrante da terra do vinho!
Vieram-me então à cabeça, os versos do poema de Miguel Torga “Perenidade” (Libertação – 1960):

“Tira da natureza o luxo eterno que ela te concede…”

Elisa Araújo

 Foto Zé

Subi ao cimo da serra por trilhos estreitos e saibrosos e decidi descansar um pouco, quando cheguei ao limite das minhas forças. Deitei-me então num tufo de erva verde e húmida e adormeci.
Assim começou o sonho.
Da pele áspera de uma pedra granítica alcandorada numa fraga nascia timidamente uma torga, planta bravia de caule rectilíneo, perfeitamente adaptada ao seu inusitado habitat – o ventre de uma pedra!

Miguel Torga (foto)

Parecia-me um milagre. Eis se não quando, dela saiu uma voz profunda e cava:

– Não te espantes. Sou o poeta Miguel Torga, aquele que ama a natureza, as fragas, a magreza da terra, os trabalhos nos campos. Acho que “só quem sobe à montanha toca o céu! Na terra chã ninguém se transfigura…”
Achei belas essas frases e atalhei com entusiasmo:
– Concordo perfeitamente e foi por isso que eu empreendi esta longa caminhada.
– Fizeste bem, pois “ … asa que possa andar no firmamento, só caminha no chão por cobardia”, atalhou a voz.
– Dizes frases tão lindas! Tocam-me o coração. Sinto-me um Deus neste lugar.
“Hinos aos deuses, não, os homens é que merecem que se lhes cante a virtude…”
A criação é um sombrio mistério, não achas?
– Tens razão, no entanto sinto que existe algo de divino nas tuas palavras.
“Um poeta é sempre um grande soberano no seu triste destino, nunca uma divindade… Deus é imenso, mas nem eu lhe pertenço, nem é por ele que a minha angústia chama…”
– Acho estranha esta tua ideia, pois eu sei que frequentaste o seminário em Lamego e, nos teus versos de carácter humanista perpassa quase sempre uma certa religiosidade, um intenso dramatismo, delicados pormenores de simplicidade franciscana.
– Talvez por isso, eu fiquei a acreditar mais no homem, “esse arbusto de dois pés, com movimento, esse fugaz rebento da cósmica semente que o sol aquece… Deus, ao mesmo tempo que nos criou, também nos perdeu…”
– Creio que a tua poesia encara a vida como luta contra o poder e as leis divinas e possui raízes telúricas e libertárias. Sei que abandonaste o grupo da revista Presença, por não te enquadrares em moldes, no entanto continuaste a reforçar os universos da individualidade criativa de um modo muito pessoal e carregado de uma enorme sensibilidade estética – os teus versos são burilados ao pormenor e o teu vocabulário tem a sua raiz na sobriedade clássica. Eu diria até que és um artesão da palavra!
– Nem tanto. “Nenhum homem é perfeito, desde Adão universal… Ando apenas a descobrir as formas imprecisas das palavras e às vezes fico tolhido de inspiração…”
“Tento apenas ser o sinaleiro do destino de quantos lêem os meus versos. O filão de lirismo é um verso esquivo que atravessa a dureza do granito! Mas quantas vezes os meus versos são frutos acres que não apetece comer…”
– A tua poesia é possuída por imagens irradiantes e nem sempre é soturna e sombria. Ela capta também as apreensões, esperanças e angústias das últimas décadas, de um modo pessoalista, sempre imbuído de uma visão religiosa.
– Tens razão. Não engano os meus leitores, nasci subversivo. Invade-me sempre uma profunda insatisfação. Canto como quem usa os versos em legítima defesa. Procuro ser sincero e “vendo ao mesmo preço o direito e o avesso da verdade…”
Encaro a vida como luta contra o poder e as leis divinas. Tento actuar perante os atropelos contra a dignidade, a liberdade e a injustiça. Existe na minha poesia uma revolta contra todo o tipo de prisões.
– Penso que és um poeta profundamente intimista, que busca a sua força no chão que pisa e na natureza em que se integra – as Terras do Barroso, onde vivi a minha infância envolta em silêncios e solidão. É uma região única possuída por uma poderosa força divina que nos acompanha para sempre. As serranias fazem de nós seres diferentes, que prezam a interioridade e a proximidade com a terra e as gentes que as trabalham.

Não esqueço a brancura gélida da neve, o murmurejar dos riachos, os cabeços ondulados dos penedos plasmados no horizonte, em resumo, esse cenário de paz decorado pela solidão das serranias, dos campos ondulantes.
– Não sabia que pertencíamos à mesma Pátria! Vou citar-te precisamente o meu poema “Pátria”, escrito em 1942: “Serra! / E qualquer coisa dentro de mim se acalma… / Qualquer coisa profunda e dolorida, / Traída, /Feita de terra/ E alma./ Uma paz de falcão na sua altura / A medir as fronteiras: / – Sob a garra dos pés a fraga dura, / E o bico a picar estrelas verdadeiras…”
Mas, nos anos 60, tornei-me mais interventivo e fiz alguns versos sobre a nossa Pátria, num sentido amplo, isto é, sobre o Portugal de então. Queres escutar-me, de novo?
– Com todo o prazer te ouvirei, porque sei que, afinal a nossa Pátria pouco mudou. Continuamos a lutar contra moínhos de vento…
– Então, escuta: “Na frente ocidental nada de novo./ O povo/ Continua a resistir./ Sem que ninguém lhe valha,/ Geme e trabalha/ Até cair.”
Um pouco mais tarde, sentado numa fraga, tive a sensação de um silêncio circular, sem palavras, sem gritos, sem o eco sequer de uma praga incontida e exclamei com raiva: “Ah! Portugal calado!/ Ah! Povo amordaçado/ Por não sei que mordaça consentida!”
– Ah! Querido poeta, continuamos na mesma amordaçados sem ninguém que nos valha. Lamento dizer-te que as tuas palavras não passaram de um eco que só tu ouviste.
“Meu Portugal eterno/ De cabras e carrascos!/ É no teu chão dorido/ Que gasto, em paz, os cascos/ De fauno envelhecido.” Cito emocionado estes versos, sabendo, no entanto, que eles não terão voz futura.
– Não digas isso. Para mim as vozes dos poetas são eternas. Aliás, no teu poema “Voz Activa”, demonstras bem que os poetas têm voz e devem causar o desassossego: “Canta, poeta, canta!/ Violenta o silêncio conformado./ Cega com outra luz, a luz do dia./ Desassossega o mundo sossegado,/ Ensina a cada alma a sua rebeldia.”
Na década de 70, tornaste-te mais interventivo, mas também mais desperto para os males que ensombram “esta praia ocidental”. Lembro-me de alguns versos do teu poema “Lamento”:”Ah, meu povo traído,/ Mansa colmeia/ A que ninguém colhe o mel! …”
Proponho que cantemos em uníssono estes teus versos que são, no meu entender, um hino à esperança, uma oração: “- Liberdade, que estais em mim,/ Santificado seja o vosso nome.”
O eco da voz do poeta ainda se ouvia ao longe: “…Mas assinei a vida que vivi/ Doeu-me o que sofri./ Fui sempre o senhorio do meu fado…”
De repente, acordei em sobressalto. A noite já invadia a serra e os socalcos até ao rio. Olhei de novo para a pedra granítica e a torga ainda lá estava, altiva e hirta, desafiando a natureza, resistindo, em memória de um poeta que se apropriou do seu nome, como símbolo de resistência e de força na luta contra as múltiplas limitações que aprisionam o próprio Homem.
Disse baixinho:” Que pena este sonho ter acabado…”
E desci a serra até ao rio de águas inquietas que ainda reluziam como um espelho sob a luz vermelha do crepúsculo.

NOTA: Este texto contém alguns excertos de poemas de Miguel Torga escolhidos de propósito para completarem as peças do “puzzle” que constituem a espinha dorsal desta pequena história fantástica.

Elisa Araújo

Tinha combinado com a minha turma irmos à inauguração do primeiro Museu das Palavras em Lisboa, o único do mundo. O grupo era pequeno, mas estava muito interessado nessa visita. Depois de observarmos o edifício todo coberto de palavras retiradas, na sua grande maioria, de poemas de poetas portugueses, dirigimo-nos para a porta de entrada, onde se encontrava o nosso guia, um jovem simpático e afável com ar de poeta.
Depois de saudar o grupo, disse: – Preparem-se, pois este é um lugar que fala e transforma todos em poetas, ao serem tocados pelo dom das palavras que nos levam a travar um combate entre o Eu e o Universo.
Kandinsky dizia que a palavra era um som interior, assumindo duas significações – uma primeira, directa, e uma segunda, interior – é o material puro da poesia e da literatura, o material que só esta arte pode usar e através da qual fala à alma.
Ficámos curiosos e desejosos de descobrir se essa afirmação seria verdadeira.
O guia ainda explicou que iriamos visitar apenas quatro salas: a Sala 1– O Negrume; a Sala 2– O Surrealismo ou o “além do real”; a Sala 3 – a Poesia e a pujança da palavra e a Sala 4 – As palavras em liberdade, onde iríamos fazer exercícios de descoberta de títulos de obras e poemas de Mário Césariny de Vasconcelos.

mario cesariny

Depois, abriu uma porta e entrámos numa sala completamente às escuras. Ficámos um pouco à toa, mas o guia exclamou: – Não se assustem, pois já Paul Celan dizia que do «Negro nasce a luz, o negro é a potência, a concentração minimal da cor gera excesso.»
E continuou: – Preparem-se, porque a seguir vamos entrar na sala dedicada ao Surrealismo, o único movimento moderno que experimentou a criação colectiva.
A medo, transpusemos uma porta e deparámo-nos com o manifesto de André Breton escrito em letras de néon: “O Surrealismo é o automatismo psíquico puro, por meio do qual se propõe exprimir, quer verbalmente, quer por escrito, quer por qualquer outro meio, o funcionamento real do pensamento.”
E o guia adiantou: – Irão verificar que este movimento privilegiou a escrita automática, o acaso, o insólito e o inesperado. A Poesia tornou-se num discurso de palavras em liberdade, proporcionou ao homem a sua libertação integral, ao mesmo tempo que lhe revelou a unidade do Universo. Freud foi um dos seus mentores, ao destacar a importância capital do inconsciente, das experiências oníricas e dos automatismos psíquicos. Foi ainda um movimento, digamos assim, que surgiu como contraponto à crise contemporânea e ao estado do mundo pós I Guerra Mundial.
Olhámos, fascinados, para as imagens diante dos nossos olhos e, por momentos, sonhámos com contra mundos utópicos, muito para além dos momentos de crise que atravessamos.
Ao verificar que nos sentíamos bastante confusos, o nosso guia adiantou: – Não se escandalizem, pois as frases que irão descobrir contêm imagens bizarras.

O principal intuito deste movimento era escandalizar e chocar a sociedade, através da deformação  intencional da realidade. Preparem-se agora para outra experiência radical, ou seja, a entrada na Sala 3. A medo, atravessámos outra porta misteriosa e entrámos na sala seguinte, uma espécie de ágora. Começaram a surgir alguns actores que iriam encarnar poetas e escritores e proferir frases, contendo as suas ideias sobre a Poesia e a escrita em geral e o digno papel do poeta.
Apareceu Novalis, que exclamou numa voz suave e romântica: – “O mundo tem de ser romantizado. Assim se encontra o sentido das origens. Romantizar não é mais do que uma potenciação qualitativa.” E continuou, emocionado: – ”O sentido da poesia tem muito de comum com o sentido do misticismo. É o sentido do que nos é próprio, pessoal, desconhecido, misterioso e à espera de ser revelado, do fortuito inevitável. Representa o irrepresentável, vê o invisível, sente o insensível… Com o mistério do verbo apagaremos o mundo às avessas em que vivemos.”

Entra Baudelaire, que afirma: – “Concordo perfeitamente! Para mim a poesia é vista como palco das grandes tensões do mundo moderno e do sujeito em crise.”
Chega Hölderlin e atalha: – “Para mim o poema é uma construção de rigor na qual se encontram linguagem e conhecimento (ou beleza e verdade).”
Virando-se para Vicente Franz Cecim, interpela-o: – “O que pensas sobre este tema?”
E ele afirma, convicto: – “Concordo plenamente convosco. Para mim a poesia é um instrumento para dar a conhecer a vida real, dobra a dobra…” Enquanto todos aplaudem, entra Gottfried Benn que se junta ao debate, aprofundando-o ainda mais: – “Penso que, no processo de construção de um poema, não observamos apenas o poema, observamo-nos a nós próprios.”
Na ágora, surge agora Paul Celan que declara: – “Eu digo mais – o poema vai a caminho do outro, da praia em que a mensagem na garrafa será certamente recolhida.”
Bela imagem! Dizem todos em uníssono.
Depois de uma acesa discussão, eis que entra em cena a única mulher, Maria Gabriela Llansol. Esta exclama, um pouco zangada: – “Então, por ser mulher, esqueceram-se de mim?!”
Atónitos, escutaram-na com atenção. Fortemente emocionada, Llansol exclama: – “O poeta não é profeta: limita-se a agir com as palavras, a ver e a ouvir o mundo vivo, num mundo que perdeu essas faculdades e já só sobrevive, ou corre sem saber para onde vai.”

Eles nem sequer sabiam que Maria Gabriela Llansol inaugurara uma prática de escrita única alicerçada na imposição de um protocolo de leitura decorrente da compreensão da arte como forma de conhecimento; da reflexão sobre uma cultura europeia marcada pelos encontros de confrontação que não se deram – e podiam ter sido autênticos recomeços de novos ciclos de pensamento e de novas formas de viver.
A discussão continuou acesa, mas nós tínhamos de prosseguir a nossa visita guiada e entrar na Sala 4. A sala estava envolta numa luz crua, mas, de repente, iluminou-se e um corpo visível, que encontro em todas as ruas que percorro, exibe um manual de prestidigitação, em cuja capa surge o título: todas as palavras são burlescas, teóricas e sentimentais.
Em cima de um palco, o actor prosseguia o seu discurso composto de palavras que revelam uma nobilíssima visão do mundo e que intencionalmente exibem a deformação da realidade através da junção de imagens bizarras e irónicas, representando o “além do real”, a alma e o mundo. Num pequeno ecrã, ao fundo, surge a cerimónia da transladação do virgem negra (figura ambígua e um pouco paródica) para o Mosteiro dos Jerónimos.
Depois, fala em Titânia e a cidade queimada, onde encontra um homem com as mãos na água e a cabeça no Mar, talvez em busca da sua libertação integral, ou seja, da sua unidade com o Universo, da sua origem plena. De repente, lança uma garrafa ao mar com um poema que irá, por certo, a caminho do outro que o recolherá.

No fim da visita, juntámo-nos todos à volta de uma mesa e a discussão ia surgindo acalorada. Ficámos fascinados com tudo o que vimos e concluímos que, realmente a vida não teria sentido sem a Poesia. Romantizar, por vezes, é um caminho de fuga ao cinzentismo da realidade que nos envolve, mas que teremos urgentemente de modificar.
Por fim, a professora exclamou sorridente: – Meninos, agora é a vossa vez de mostrarem o que sabem e, para tal, proponho-vos o seguinte exercício – descobrir, neste curto discurso o maior número possível de títulos de poemas e obras de Mário Césariny de Vasconcelos, um dos grandes poetas surrealistas portugueses.
Olhámo-nos, receosos de não sermos capazes de cumprir os objectivos traçados pela professora, mas, ao mesmo tempo, este exercício iria constituir mais um desafio em prol dos nossos conhecimentos culturais.
Adorámos esta experiência e prometemos ao guia que iriamos voltar em breve para vermos as outras salas e mergulharmos novamente nesta experiência radical.

Elisa Araújo

Fonte principal: Livro “Geografia Imaterial – três ensaios sobre poesia” de João Barrento. (Colecção Linhas de Fuga)